29 dezembro 2013
27 dezembro 2013
30 maio 2010

Migração dos Pássaros
Já ninguém se sentia, há dias. A terra agora não se esfarelava ao pisar. A vontade de se espraiar, com os ouvidos encostados ao chão, era interrompida pela forma como os grãos se começavam a unir, numa humidade uterina que anunciava um período de gestação, não se sabendo bem do quê.
Todos concordavam. Era a época certa. Ou parecia. A voz dos sábios era corrompida por um medo que nem todos compreendiam.
A divisão: a vontade.
As asas arrepiadas estendiam-se para os céus e uns seguiam este movimento, porque era preciso, e outros persistiam em ancorar os bicos na terra barrenta: aquilo sabia tudo a casa e a vontade era de ficar.
O Sul não passava de um mito proclamado pelos anciãos, era uma religião, uma fé, que como o vento se sentia, mas não se via. Mas os penhascos e as narinas cheias de maresia eram evidentes, palpáveis, muito reais.
Já era tarde. A brisa perfumada pelo tojo e pela carqueja era agora um vento pedregoso, estéril. Os fanáticos do Sul há muito que rasgavam os seus bicos contra as nuvens.
O amor arraigava-os àquele sítio. O toque delicado daquele céu, a forma como a urze rebentava em pequenas ilhas, e como era bom dormir nelas e acordar entranhado no seu perfume agridoce.
Os corpos arrefeciam. Arrefeceram. Ficaram, amarrados à paixão. Iam ficando, pelo chão, carcaças abandonadas, presas à terra pela vontade.
Os últimos esgravatavam na ânsia de encontrar o amor que ali os prendera. E de olhos embaciados, enganados pela morte, deixavam-se ir felizes.
Ricardo Fernandes