30 Maio 2010


Migração dos Pássaros


Já ninguém se sentia, há dias. A terra agora não se esfarelava ao pisar. A vontade de se espraiar, com os ouvidos encostados ao chão, era interrompida pela forma como os grãos se começavam a unir, numa humidade uterina que anunciava um período de gestação, não se sabendo bem do quê.

Todos concordavam. Era a época certa. Ou parecia. A voz dos sábios era corrompida por um medo que nem todos compreendiam.


A divisão: a vontade.

As asas arrepiadas estendiam-se para os céus e uns seguiam este movimento, porque era preciso, e outros persistiam em ancorar os bicos na terra barrenta: aquilo sabia tudo a casa e a vontade era de ficar.


O Sul não passava de um mito proclamado pelos anciãos, era uma religião, uma fé, que como o vento se sentia, mas não se via. Mas os penhascos e as narinas cheias de maresia eram evidentes, palpáveis, muito reais.


Já era tarde. A brisa perfumada pelo tojo e pela carqueja era agora um vento pedregoso, estéril. Os fanáticos do Sul há muito que rasgavam os seus bicos contra as nuvens.


O amor arraigava-os àquele sítio. O toque delicado daquele céu, a forma como a urze rebentava em pequenas ilhas, e como era bom dormir nelas e acordar entranhado no seu perfume agridoce.

Os corpos arrefeciam. Arrefeceram. Ficaram, amarrados à paixão. Iam ficando, pelo chão, carcaças abandonadas, presas à terra pela vontade.


Os últimos esgravatavam na ânsia de encontrar o amor que ali os prendera. E de olhos embaciados, enganados pela morte, deixavam-se ir felizes.


Ricardo Fernandes

25 Abril 2008

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia M. B. Andresen

20 Abril 2008


Deixei as horas,
Os dias,
Já não existo
Nesse contínuo
Humanamente imperfeito.
O meu ponteiro das horas
Há muito que não bate
Com o dos minutos.

18 Novembro 2007














nem sempre os faróis
se acendem entre brumas de nevoeiro

às vezes o faroleiro adormece

outras é apagado pelo ocaso.

02 Setembro 2007

Haiku
A sombra fugia
pelos cabelos eólos
do bambual

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01 Março 2007


Término

No fim, há sempre
o gosto acre
daquilo que não foi

Perde-se a linha,
perde-se o horizonte,
já não existe azul
que nos salve.

No fim,
quer-se sempre mais.

02 Novembro 2006




"Entre mim e as coisas
havia vizinhança"

Camilo Pessanha



I

Dentro da tua presença
Derretia-se o sol
Arrepiando os gatos,
Escurecendo as paredes.

A lareira ia consumindo as horas
E distribuía o seu brilho
Pelas pratas que areavas
Ocasionalmente aos Domingos.

No mais profundo vazio
O chão estremecia
Com os gemidos das árvores.
E era sempre noite.

As coisas justificavam-se
Sem palavras, e eram,
Para além da noite,
O que nos cercava.


II

No andar de cima
Já não há gritos.
Ouvia-se o silêncio,
Que estranho.

E tu chegavas
Com as folhas do Outono
E as rosas na varanda
Anunciavam o adeus.

E todas as coisas
Que nos eram mais próximas
Morriam gritando
P'la tua presença.

Esperavam
P'lo arrepio dos gatos
P'lo sol a derreter
Nos cantos da janela

E pelo ecoar das pratas no vasto salão.

Esperavam
Por um sinal,
Dentro da tua presença.


Texto: Ricardo Fernandes